O evolucionismo nos traz a ideia de que o corpo se adapta para sobreviver, abandonando o inútil para nutrir o útil. O tédio segue essa mesma lei. O corpo aprendeu a se entediar para perceber a diferença entre uma atitude produtiva e a improdutiva. Sem o tédio, o ancestral humano poderia ficar dias procurando comida em um lugar vazio, sem achar nada e sem se incomodar com isso. O tédio permaneceu, pois é o princípio do movimento. Ele tem sua utilidade ao nos alertar de que o que estamos fazendo pode não servir para nada.
Antes que o raciocínio aponte que há uma recompensa de longo prazo, o tédio instintivo esgota nossa motivação. É preciso um grande esforço para negar o instinto. O grande obstáculo dos estudos é que a recompensa é quase sempre no longo prazo. Estudando na escola, até mesmo o longo prazo parece incerto. O tédio é o instinto de proteção que tenta te afastar desse ambiente.
Desde quando entrei na escola até o meu último ano do ensino médio, nunca entendi realmente o motivo de fazer o que mandavam. Estudei por mais de uma década para conseguir notas que não representavam nada. Você suporta porque não existe outra forma: “é assim que as coisas são”, eles dizem. A estrutura escolar atual é o gatilho do tédio. Somos ensinados a obedecer sem entender, fazer porque deve ser feito. As crianças e adolescentes são configuradas para enxergar no estudo um ato improdutivo/entediante. Uma ideia que é reproduzida nos próximos anos da vida.
A esperança não se encontra apenas em meios de suportar o tédio, mas numa reprogramação que te faça ver o aprendizado como uma recompensa de curto prazo. A recompensa do estudo não precisa ser de longo prazo. Cada conhecimento novo é uma recompensa inteira e completa. Que pede por mais e não satisfaz o desejo de saber.
“A sabedoria”, diz Nietzsche, “temos sede dela e não nos saciamos.” Sua percepção é teimosa e não nos pertence por muito tempo. E, quando parece chegar ao seu fim, dá espaço para um novo começo.
“[…] quando fala mal de si, é então que mais seduz.”
Quando Nietzsche fala que a sabedoria mais nos seduz quando fala mal de si, está falando do que hoje conhecemos como efeito Dunning-Kruger. Quando estamos começando a entender algo, sentimos que já sabemos de tudo. E quanto mais sabemos, mais percebemos nossa ignorância. Falar mal de sua sabedoria é entrar numa toca de coelho que te leva sempre mais longe.
Sempre que eu leio algum estudo científico, ele acaba me empurrando outro estudo. E eu leio esse outro, que me leva para outro. E eu fico assim por horas, imerso, sem sentir tédio, mas com pena dos tantos outros que gostaria de ter lido, mas deixei para trás.
O tédio é algo normal, com o qual devemos aprender a conviver, mas nunca deveria existir no aprendizado. Ao transformar cada novo saber em uma grande recompensa e podendo repetir esse mesmo ato inúmeras vezes, falar de tédio no contexto do aprendizado é como falar de um leão vivendo no polo norte. Não é natural, alguém o colocou ali.
Não deveríamos estudar porque é um sofrimento que faz parte da vida, mas para sentir aquilo que nos completa, mas que fomos ensinados a nunca sentir falta.
Algo que ninguém pode nos tirar (Natti)
Acredito que a maioria de nós sempre escutou que há algo que nunca podem tirar da gente: o que aprendemos.
Nosso dinheiro pode se esgotar, nossos bens ruírem com o tempo, nossas relações acabarem, mas, o que aprendemos, continua com a gente. É o nosso maior bem, propriamente dito.
Ultimamente, venho pensado muito nisso, o quanto isso pode ser enganoso.
Certo, ninguém pode nos tirar, mas, e o tempo? E nós mesmos? E o acometimento de uma doença neurológica? E um trauma emocional? O que passamos uma vida aprendendo, o que ansiamos, vai pra onde? Sei que até aqui, ele nos trouxe, mas e quando tudo isso some ou não faz mais sentido? O que resta da nossa consciência? Ainda teremos uma?
Com essas provocações, trago a premissa de que além do longo prazo, possamos entender o agora da aprendizagem. É ela que nos faz realmente conscientes no “aqui e agora”. Nos faz agentes, tomadores de decisões: “eu escolho ler mais um parágrafo, eu escolho abrir um próximo livro e ir passando as páginas até o final…”
O tédio que as pessoas logo remetem a uma leitura, a o um investigar, a uma reflexão, vem também do pressuposto de que aquilo não será necessário para algo prático do dia a dia, mas, não se imagina o tanto de conexões e o bem que estamos fazendo ao nosso corpo com uma forma saudável de aprender. É energia. É consciência, novamente, no aqui e agora - que é o que temos.
Além de que, se nos esforçarmos mais um pouco, poderemos aplicar de forma multidisciplinar - o que me encanta ainda mais!
Vou dar uma ideia que acabei de pensar… uma fórmula matemática, uma teoria, isso poderia simplesmente, me fazer empolgar com a antropologia, sociologia…sair na rua, ver aqueles rostos que passam por mim e ficar: “Imagina do que o ser humano é capaz!! Ele juntou incógnitas e números e descobriu tal informação!”
Ou fazer o sentido inverso, aprender algo em biologia, química e perceber que essas combinações são capazes de formar o corpo humano, essa nossa máquina que nos faz capazes de criar fórmulas matemáticas, físicas! E descobrir planetas, estrelas, galáxias, outros animais, seres minúsculos ou maiores que a gente!
Isso é aprendizado!! Isso é se permitir fazer conexões e aceitar o “tédio”!
Não trago essa visão como sendo pessimista - o fato de que podemos nos esquecer; levanto a hipótese para a gente se perceber mais presentes em nossas ações.
O tema é sobre o tédio em aprender, porém, equiparo os dois. São “ambientes” propícios ao nosso existir.
Coletivamente ou individualmente, ambos, podem nos ‘transcender’ em descobertas. E o sobreviver passa a ser vivência!







Em meio à azáfama do trabalho da fazenda, sentei na mesa, respirei fundo e relaxei para ler o texto.
Seus textos que me ensinam tanto, Natti. Obrigada ☺️
Adorei a sua sensatez ao pontuar que o conhecimento também nos é tirado. Afinal, de que serviria o Alzheimer senão para nos lembrar que conhecimento acumulado, experiências, vivências e etc. também não nos servem de muita coisa.
Mas, se me permite a intromissão, quero te deixar um ponto de reflexão:
Em meio a essa vida instável, onde tudo, ou quase tudo, se perde no tempo, ah algo que foge a regra: o bem que fazemos.
Assim como Cronos devorava tudo, até seus filhos, o tempo pode me retirar tudo, mas ele não tira o bem que eu fiz a alguém, ele não tira a história que eu construí.
Que possamos viver para deixar o bem como rastro. 🙏